Quanto custa a violência para a sociedade?

Quanto custa a violência para a sociedade?

            Pesquisas de opinião pública mostram que a violência já figura entre as três grandes preocupações dos brasileiros, ao lado do desemprego e da saúde. A escalada da violência é tamanha que obrigou o governo federal a intervir na área de segurança pública no estado do Rio de Janeiro, que está dominado pelo tráfico de armas, drogas e pelas milícias. Segundo pesquisa recente do Instituto DataFolha, 92% da população carioca tem medo de se ver no meio do fogo cruzado entre policiais e bandidos, de ser vítima ou ter parente vítima de bala perdida ou de ser ferido ou morto em um assalto. Estamos falando de 92% da população, ou seja, quase a totalidade da cidade.

            Se no Rio de Janeiro o cenário é mais latente, a realidade da segurança pública nas capitais brasileiras e até nas cidades antes consideradas “tranquilas” não é muito diferente. Vivemos, realmente, uma situação limite que exige medidas drásticas e urgentes por parte dos nossos governantes. Não sou especialista em segurança pública, por isso não vou me aprofundar nem entrar especificamente em detalhes desse setor. Quero chamar atenção para o impacto social causado pelos índices de criminalidade, ou seja, qual o custo econômico da violência para a sociedade. Afinal, quanto custa para o país o atendimento a vítimas de armas de fogo, agressões e acidentes?

            O valor exato do custo para o setor de saúde do atendimento a vítimas de violência no país é realmente difícil de calcular, mas é possível ter uma estimativa. Em 2016, durante o Fórum Brasileiro de Segurança Pública foi apresentado um estudo, encomendado pelo Banco Mundial, que mostra que o Sistema Único de Saúde, o SUS, gasta R$ 5,14 bilhõespor ano para atender vítimas de violência. Esse valor é referente ao atendimento de pacientes feridos por causas externas, principalmente agressões e acidentes de transporte. Houve um aumento de 130% no valor gasto pelo SUS ao atendimento desses pacientes desde 2004. Isso é preocupante, mas pasmem: esse gasto é maior. O estudo foi feito com base nas informações do SUS, portanto, os atendimentos privados e os de vítimas que possuem plano de saúde não estão computados nesses mais de R$ 5 bilhões.

            O mesmo Fórum Brasileiro de Segurança Pública apresentou outro estudo que calcula o custo social da violência, ou seja, o que o país deixa de produzir por ter parte da sua população atingida pela violência. A conta é feita estimando os anos de vida produtivos que as vítimas perdem a partir de uma expectativa de produção. Segundo o estudo, esse custo, em valores de 2016, chegou a R$ 133 bilhões, o que representa 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2013. E de lá para cá a violência cresceu no país. Se aplicarmos esses 2,5% do PIB como custo social da violência ao PIB brasileiro do ano passado, que foi de R$ 6,6 trilhões, chegamos à impressionante cifra de R$ 165 bilhões. Esse seria o custo social estimado da violência para o país por ano.

            Na área de segurança pública há muitas medidas que podem ser tomadas para tentar diminuir a criminalidade, mas isso depende principalmente de vontade política. Todos os trabalhos sobre segurança pública e criminalidade, porém, mostram que a educação é o grande e principal caminho de saída do crime. Se essas pessoas que estão marginalizadas do sistema econômico hoje não tiverem acesso a uma educação de qualidade, o Brasil só vai ver, infelizmente, seus índices de criminalidade aumentar. Junto com ações específicas, emergenciais e enérgicas em segurança pública, a educação é realmente o caminho para mudar a cara do país.

Por Yussif Ali Mere Jr

Médico nefrologista, é presidente da Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (FEHOESP) e do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo.

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